Herói Sórdido: Manuel Cerveira Pereira e a abertura docomércio de escravos em Benguela no início do século XVII
Artigo escrito pelo Prof. Dr. Estevam Costa Thompson, discente do departamento de História, publicado na revista “Portuguese Studies Review”.
Sinopse do artigo:
Manuel Cerveira Pereira foi duas vezes governador de Angola (1603-1606 e 1615-1617) e o primeiro governador de Benguela (1617-1625). Além de uma carreira política de sucesso, Cerveira Pereira também foi celebrado como um bravo herói militar pelos historiadores do período colonial, conhecido nos clássicos portugueses como o “Conquistador de Benguela”. A memória de Cerveira Pereira e sua atuação em Angola e Benguela sofreu uma profunda revisão no século XXI, não apenas pela historiografia africanista especializada na África Centro-Ocidental, mas também no imaginário popular. Um dos grandes romancistas angolanos da atualidade expressou em poucas palavras os sentimentos atuais em relação ao ex-herói colonial. Para Pepetela, natural de Benguela, o capitão Cerveira Pereira era, de fato, “um filho da puta”. Mais do que uma ofensa gratuita, a indignação transcrita por Pepetela revela o sentimento de quem estudou as estratégias militares portuguesas durante o processo de conquista e colonização de Angola e Benguela: ataques perpetrados na calada da noite, aliados presos quando convidados para uma conversa amigável , trabalhadores dispensados do serviço e depois atacados covardemente pelas costas, algemas reservadas para quem se embebedasse com a cachaça oferecida em sinal de amizade. Muitas estratégias sórdidas foram usadas pelos heróis portugueses para saciar sua sede de cativos para o comércio atlântico. Através de fontes primárias publicadas e manuscritos inéditos, este artigo procura revelar algumas das estratégias utilizadas pelos militares e traficantes para promover o tráfico negreiro e a ocupação da costa de Benguela entre os séculos XVII e XIX.
